"Se todos fossem no mundo iguais a você"

“Vinicius” do diretor Miguel Faria Jr é um documentário que presta um grande serviço á memória musical brasileira. Através dele podemos ter uma idéia de como era a relação entre morro e asfalto  nos chamados "Anos Dourados, (década de 50), além de vermos artistas que hoje são ídolos, como Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia entre outros, trocando de papel e colocando-se na posição de fãs, para falar de um artista que quebrou tabus na música e  junto com Tom Jobim compôs grandes clássicos da bossa nova "Chega de Saudade", "Garota de Ipanema", "Só danço samba", "Insensatez". E com Baden Powell ajudou a injetar pontos de macumba e toques de capoeira na distinta senhora MPB, com os afro-sambas "Canto de Ossanha", "Berimbau", " Tempo de amor", "Tristeza e Solidão" entre outros(A História da MPB;Américo, Luis;Civilização Brasileira, 1990).

 

No filme, medalhões da atualidade como o crítico literário Antonio Cândido, a atriz Tônia  Carrero, o poeta Ferreira Gullar os músicos Caetano Veloso, Toquinho, Francis Hime e Carlos Lyra  e os já citados Chico Buarque, Maria Bethânia, Gilberto Gil, ajudam a construir uma enorme colcha de retalhos, cada um falando de uma faceta de Vinicius de Moraes. Ficamos sabendo, por exemplo, através de Caetano, que o confundira com o ator e produtor musical Haroldo Costa durante a divulgação do espetáculo "Orfeu" em um canal de televisão, que diferentemente de Haroldo, ele não tinha a pele  preta, mas se auto intitulava  “o branco de alma mais negra do Brasil”, além de ser um macumbeiro de respeito e chegadíssimo em uma roda de samba. Isso sem falar das suas muitas paixões “eternas enquanto dura”. Ele casou-se nove vezes. Características que não eram bem vistas por todos do seu meio de origem. Percebe-se através do depoimento de artistas como Francis Hime e Carlos Lyra, o grande desconforto que as atitudes do “Poetinha” causava ao establishment.

 

Pois não é que Vinicius de Moraes teve a audácia de criar o musical "Orfeu da Conceição", em 1956, com elenco formado na sua totalidade por atores afro-descendentes, em uma época em que a sociedade brasileira ainda tolerava abusos e atitudes odiosas, cometidas por pessoas que insistiam na manutenção de ideologias racistas, e cuja máxima era a de que  “o negro deveria saber o seu lugar”. Na visão de Vinicius esse "lugar" poderia ser diverso, incluindo o palco. "Orfeu da Conceição" foi um grande sucesso de público, causando grande rebuliço, tendo sido posteriormente transformado em filme pelo cineasta francês  Marcel Camus, que conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1959. "Orfeu" ganhou ainda uma nova versão cinematográfica em 2001, pelas mãos  do cineasta brasileiro Cacá Diegues.

 

Com isso, ele introduzia antecipadamente, o conceito de Ação Afirmativa,  que é o resgate da cidadania e humanidade de grupos historicamente marginalizados, através de ações positivas. Conceito este que, na época, ainda não existia de forma institucionalizada nos EUA. Alíás o filme mostra que os EUA, por sinal, foram responsáveis pela sua tomada de consciência, a respeito de questões que os brasileiros sempre trataram na base do faz-de-conta, como racismo, segregação, distribuição de renda, respeito ás minorias e ás diferenças. Consciência essa que se manifestou com força total, quando ele, durante a sua temporada de cinco anos como diplomata brasileiro no país, compôs o poema "Blues para Emmet Louis Till", que faz referencia a um homem negro, acusado de assobiar para uma mulher branca americana, motivo que levou o marido desta a assassiná-lo. Vinicius de Moraes era um homem e um músico à frente de seu tempo, que entendia e respeitava o Brasil, como ele realmente era, ou melhor, deveria ser, se todos fossem no Brasil iguais a ele.

 

O seu respeito ás manifestações populares, em especial ao samba, mostra como ele se despia de qualquer afetação, e tratava com igualdade as culturas de origem africana e européia. Interagia com ambas de forma respeitosa, usando o seu conhecimento musical para ajudar a despartir a cidade, mostrando o que havia de belo e positivo no morro. Mesmo que isso desagradasse a alguns contemporâneos seus, que não vinham com bons olhos as suas escolhas musicais e achavam um desperdício de talento, um músico que tinha uma formação erudita, envolver-se tão apaixonadamente com um estilo  musical estigmatizado, constantemente associado á pobreza e outros substantivos depreciativos.

 

Vinicius marcou uma era e conseguiu dialogar com vários segmentos sociais, através da sua música. Os versos “é melhor ser alegre que ser triste / alegria é a melhor coisa que existe” e  “é que o samba nasceu lá na Bahia/ e se hoje ele é branco na poesia/ ele é negro demais no coração” dão uma idéia de que ele não fugia das questões polêmicas. Ele sempre deixava claro que deve-se dar a César o que é de César e ao povo o que lhe pertence. Era o irreverente, audacioso, justo filho de Xangô e grande artista Vinicius de Moraes dando o tom.

 

No filme grandes intérpretes da MPB fazem releituras da obra do poeta e seus parceiros, intercaladas pela declamação de seus poemas e textos  feita pelos atores Camila Morgado e Ricardo Blat. Entre os artistas convidados a interpretar algumas canções de sua autoria em parcerias com Toquinho, Tom Jobim e Baden Powel, há nomes como Olívia Byington, Mônica Salmaso, Adriana Calcanhoto, Zeca Pagodinho, Martin´alia e o grupo de rap Nação Maré que deu um toque inovador e contemporâneo á sua obra, fazendo uma releitura do poema “Blues para Emmet Louis Till” em forma de rap.

 

Os integrantes do grupo Nação Maré - Leroy, Nego Jeff e MS Bom - nasceram e moram na Maré, onde desenvolvem atividades culturais com a garotada. Tive a oportunidade de entrevistá-los, em 2005, para um artigo publicado pela revista da MTV sobre artistas que contribuem para a melhoria de suas comunidades, e  eles estavam felizes como pinto no lixo, com todos os desdobramentos positivos que o filme trouxe. Um deles foi o pré-lançamento do documentário "Vinicius" no local, com a presença do diretor Miguel Faria Jr, da atriz  Camila Morgado e  de Chico Buarque entre outros. Um acontecimento sem dúvida marcante para o povo da Maré que sentiu-se honradíssimo com as ilustres presenças e a oportunidade de ver o filme em primeira mão. Lindo acontecimento  que deve ter sido abençoado pelo espírito do Poeta, pois o trabalho de despartimento da cidade, do Brasil e do mundo continua.

 

Bem, tirando o fato de que nenhum, unzinho que fosse, dos atores que participaram daquela montagem de Orfeu da Conceição, em 1956, foi entrevistado para o documentário, a "película" é de grande valor, não apenas musical, mas também histórico. Vale a pena assisti-lo, pois por Vinicius de Moraes pode-se perdoar quase tudo. Fazer o quê, se a maioria das pessoas tem moral e Vinicius é de Moraes? Salve, salve o Poeta! Poeta com "P" maiúsculo!

 

 Beijo  em todos e todas.

 

Noêmia Duque.

 

Rio de Janeiro, fevereiro de 2008