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Falar de Música Popular Brasileira é
uma tarefa complicada e por vezes polêmica. Até hoje não existe um
consenso em relação à sigla MPB pois os critérios de
classificação não são muito claros. O fato é que nos anos sessenta
para ser considerada MPB a música deveria ser cool,
ter um certo ar blasé. E enquanto isso o provocador João
Gilberto cantava com a sua fina ironia: "Vamos acabar com o
samba/Madame não gosta que ninguém sambe..." Era a explosão da
intimista Bossa-Nova de língua internacional que estava mais para
hype do que hippie. Razão pela qual a chegada dos
Tropicalistas causou tanto estranhamento. Quem presenciou as
passeatas contra a utilização da guitarra elétrica na música
nacional, talvez não imaginasse que o rock se tornaria um ritmo tão
comum no Brasil atual e que Mutantes mais de trinta anos depois
fosse reconhecida como uma das bandas mais experimentais do mundo. O
tempo provou que a geração sessentista estava com tudo e nada prosa.
E quem vier a ler esta matéria talvez pergunte: anos sessenta outra
vez???
Eu poderia começar por qualquer
época, mas os anos sessenta continuam sendo referência, por ser um
divisor de águas na história da música brasileira graças aos
festivais e também por causa da ditadura militar que ajudou a tornar
a década inesquecível. Essa mistura explosiva de cultura e política
sempre deu samba. E rock. E rap. E funk. Além
do mais, foi neste período que ficou combinado que "Quem não gosta
de samba, bom sujeito não é..." Mas o conflito entre modernidade e
conservadorismo durou um bom tempo até o Brasil assumir que tinha um
lado sambista e outro roqueiro e nunca mais o som foi o mesmo.
Havia, e ainda há, uma queda de braço, nem sempre sutil, entre o
rock e o samba. E nesse embate, infelizmente, o ritmo americano às
vezes leva a melhor. Mas como a Coluna MPBzona é totalmente
contra a xenofobia e a favor da universalidade da música, é preciso
esclarecer que a culpa desta situação não é do rock e sim de
questões de ordem política, social e econômica mal resolvidas que
são transferidas para o terreno da arte.
A música é uma das linguagens
artísticas mais universais. Tão ou mais universal que a música,
somente as artes plásticas. Não é obrigatório saber História da Arte
para gostar de uma tela de Portinari, de Basquiat ou de uma
escultura de Mestre Valentim ou Rodin, pois uma pintura, uma
escultura geralmente fala por si mesma. Ainda que o apreciador não
saiba diferenciar uma obra modernista de uma surrealista, isso não o
impedirá de interagir com a imagem que vê. A música também é assim.
Clássica ou popular, não importa, o que importa é se ela soa bem ou
mal. Uma prova irrefutável disso é a cantata profana Carmina
Burana do compositor alemão Carl Orff . A sua base
percussiva e seus versos subversivos podem ser ouvidos nos lugares
mais diversos, de aberturas de shows de rock e citação do
Evanescence a comerciais de carros. E é igualmente pela sua
qualidade e riqueza sonora que a música brasileira consegue reunir
adeptos fora do país que às vezes não sabem nem aonde fica a América
do Sul. Música é música e ponto de seguimento.
Mas se hoje temos a plena consciência
de que as fronteiras estão cada vez menores em termos musicais, por
outro lado, existem coisas que não podem ser negadas, uma delas é
que por mais modernos e abertos a novas influências que sejamos,
sempre haverá algo que nos identificará como brasileiros, aquilo que
nos une no exterior e faz com que sintamos que estamos lá mas
nascemos aqui. E se existe uma música que nos identifica como
cidadãos brasileiros lá fora, essa música ainda é o samba. Pode ser
sincopado, acelerado, misturado com outros estilos musicais: samba
de roda, samba duro, samba de caboclo, partido alto; bossa-nova,
samba-funk, samba-rock, samba-jazz, samba-reggae,
que ainda assim vai ter um toque brasileiro. Para o estrangeiro isso
sempre foi claro, mas para nosotros a ficha demorou bastante
a cair. Assim, por mais roqueiros que sejamos, tudo sempre acaba em
samba, pois como diz o grande cantor e compositor Nelson Sargento "O
samba agoniza mas não morre". Aliás, o samba como o rock tem em
comum essa capacidade de reinventar-se. Frejat, Lobão, Arnaldo
Antunes, Marcelo D2, todo mundo já sambou. As pedras rolaram,
rolaram, rolaram...e no final, Thanks God, eles vieram pedir
a benção, sem vergonha de serem brasileiros e também
sambistas. Yeah. É a maldição do samba. "Música para ouvir,
música para ouvir, música para ouvir..." E dançar.
Mas, caso alguém tente argumentar que
isso era antigamente que agora música brasileira virou sinônimo de
diversidade e reggae, forró, axé, sertanejo, hardcore
nacional, mangue beat, funk setentista, funk carioca e
rap nacional também podem ser considerados MPB, eu, cá
do meu lado, devo argumentar que isso é muito natural, pois a
diversidade existe não é de agora. O Brasil já nasceu diversificado
desde que os portugueses chegaram aqui com o seu fado e os índios
faziam a sua pajelança. Mas a diversidade sempre foi sufocada, ou
pelo menos tentaram sufocá-la em favor deste ou daquele estilo
musical. Mas como quem consagra um estilo musical é o público, e
quando isso acontece, o mercado não tem outra opção a não ser
aceitar, isto é, explorar, aos poucos, fomos nos acostumando a ouvir
música de diversas partes do país. Isso deve ser considerado um
grande avanço pois até o final dos anos oitenta, fazer música
profissionalmente no Brasil era muito mais difícil. Hoje, com as
novas tecnologias e o surgimento das gravadoras independentes a
coisa melhorou consideravelmente e muitos artistas estão sendo
resgatados depois de anos de ostracismo, como aconteceu com o cantor
e compositor Tom Zé.
Depois que a garotada resolveu
mostrar a cara nos anos oitenta com a chegada da Blitz, Legião
Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas e tantos outros, nossa
auto-estima aumentou, pois não tínhamos mais motivos para nos
sentirmos complexados em relação aos nossos irmãos da América do
Norte. Yes, nós também podemos ser roquenrou. Mas
ainda faltava algo. E era justamente perder essa vergonha de ser
brasileiro e assumir logo o nosso lado " black sambista",
porque afinal, tanto o rock quanto o samba são ritmos de origem
africana. E foi no começo dos anos noventa que a música brasileira
passou por uma reviravolta estética quando o movimento mangue
beat surgiu da lama para denunciar o caos em que vivemos.
Misturar maracatu com rock foi a coisa mais genial que o
Brasil viu acontecer no campo da música nos últimos anos. O
Movimento Mangue beat derrubou definitivamente o muro que
separava o nordeste do resto do Brasil. A chegada dos
cabras-da-peste pernambucanos à cena musical, fez muita gente sentir
orgulho de ser brasileiro. A postura denunciadora, includente e
popular do mangue beat era tudo que precisávamos para
completar um processo que começou com a Tropicália. Mas,
diferentemente do papel crepom e prata e dos olhos verdes da mulata
que é a tal, os meninos de Pernambuco vieram falando grosso. Falando
de respeito, desigualdade social, revolução, Zumbi dos palmares,
Zapata, Sandino, Lampião, Panteras Negras, ou seja, todos os heróis
excluídos da história oficial. Tudo isso sem dourar a pílula, sem
ambigüidade nem tergiversação, indo direto ao ponto.
Passados oito anos da morte de Chico
Science a gente ainda consegue se emocionar, reverenciar e lamentar (muito) a sua ausência. Que Deus o tenha lá no paraíso dos músicos
pois aqui na terra o Nação Zumbi vive. Não só no trabalho do próprio
grupo, mas também nos dos seus herdeiros diretos como o Rappa, Orquestra
Santa Massa, entre outros que se inspiraram no trabalho do grupo
pelo Brasil afora. E O Rappa é um dos grupos que fazem a diferença
atualmente. Tem um som tão denso que fica até difícil classificá-lo.
Em uma cena musical em que as pessoas só pensam em copiar, poucos se
aventuram a criar, a dar a cara a tapa, isso é um grande mérito.
Fora O Rappa que é conceituado a grosso modo como um grupo de
rock, temos, entre tantos outros, Pitty. Sim senhores,
habemus Pitty. E a cena rap que também já está deixando
até american comendo poeira. A intimidade com o ritmo é tanta
que um integrante do Public Enemy ao conhecer o Brasil ficou
chocado e afirmou que depois dos EUA, se havia um lugar no mundo em
que o rap poderia ter nascido, esse lugar seria o "nosso"
país. Pois é, ainda bem que nós brasileiros somos em grande parte,
contra a reserva de mercado. E por falar em reserva de mercado,
houve quem torcesse o nariz para a vinda de Lenny Kravitz ao
Rio de Janeiro, alegando que o momento não era propício devido aos
nossos muitos problemas e coisa e tal. Só para lembrar "A gente não
quer só comida(...) Diversão e arte / Para qualquer parte".
Ainda bem que os franceses não pensam
assim ou não teríamos este Ano do Brasil na França e artistas como
esse figuraça aí da foto que ilustra a coluna não teria ido fazer o
seu show na França, garantindo assim o sustento da família ao mesmo
tempo em que divulga a boa música popular brasileira. Riachão já
teve uma música sua gravada por Gil e Caetano nos anos 70 chamada
"Cada macaco no seu galho" que fez muito sucesso nas rádios do
Brasil inteiro e outra canção sua intitulada "Vá morar com o Diabo"
foi gravada pela inesquecível guerreira-cantora Cássia Eller, em
2001. É bom saber que ele, Mestre Salustiano e outros menos
conhecidos em seu próprio país, estão lá representando o Brasil ao
lado de artistas como Marisa Monte e Lenine. Os franceses sabem das
coisas. Quanto a nós, acho que estamos precisando organizar um ano
do Brasil no Brazil. Mas, voltando ao rap nacional, a cena anda bem,
muito bem, obrigada. E voltando ao tema da coluna, ponto para
Marcelo D2 que resolveu voltar às raízes (do samba), virou uma
referência e agora tira onda cantando "perderam o manual e agora
como faz?"
E o que dizer do funk nacional? Bem,
músicas de gosto duvidoso sempre existiu na música brasileira e pelo
jeito continuará a existir, mas agora parece que alguns artistas
resolveram escancarar. Tem casos que só um personal musician
pode resolver, mas não dá para levar a sério os comentários de
algumas pessoas que criticam o funk carioca e houve Khia
cantar "My neck, my back / lick my pussy and my breasts" como
se fosse a coisa mais pura do mundo. Claro também que a questão da
língua favorece mais a Khia do que a Tati Quebra Barraco
porque não entender a língua ajuda. Além disso,
o fato da "outra" ser americana confere um certo status porque muito
do que é americano nos encanta. Tanto que se formos reparar, quase
todos os estilos musicais que predominam por aqui vindo de fora, vem
dos tão criticados EUA, o rock, o funk, o rap,
o jazz, e até o blues. A relação com a língua inglesa
é tão forte, tããão forte, que, dizem, futuramente o inglês será o
novo idioma nacional, he he he.
Puritanismo demais e falsa moral é
prejudicial à saúde, logo sejamos honestos, música com duplo e até
triplo sentido ou com forte conotação erótica existe desde sempre.
Algumas são mais sutis deixando apenas uma leve sugestão como no
baião de Gonzagão "Nem se despediu de mim/ nem se despediu de mim/
já chegou contando as horas/ bebeu água e foi-se embora/ nem se
despediu de mim". Para ouvidos atentos essa água sugere muitas
significações. Mas nem todos os compositores tem esse grau de
refinamento, alguns são bastantes explícitos e acabam por afugentar
uma parcela de público que não tolera "essas coisas". Temos que ter
senso crítico e responsabilidade social, sim, sempre. Por isso, até
que os compositores de funk resolvam ser menos explícitos,
música com erotismo só depois da meia-noite-e-meia. Querem ouvir
funk nacional? Tirem as crianças da sala primeiro, que a inocência
destas precisa ser preservada. "Funk-se quem quiser, quem puder, é
imperativo dançar..."
Pois é, tudo isso era para falar de
Música Popular Brasileira ou MPB. Mais do jeito que a
coisa vai, melhor seria chamá-la de MPBZONA, no bom sentido é
claro. No sentido de ser igual a um coração de mãe: ENORME.
Porque a nossa MPBZONA é uma metáfora do próprio povo
brasileiro, não discrimina quando o assunto é música, foi boa,
estamos dentro. Sim, o melhor do Brasil é o brasileiro e o seu (bom)
gosto musical. No mais, o que a coluna MPBzona tem a
dizer é que música é música e a única coisa que deve-se levar em
consideração é a sua qualidade. E o Brasil por já ter nascido
multicultural e multimusical, não se espanta fácil com modismos e
estrangeirismo. A gente vai centrifugando tudo e mandando de volta.
E isso não é novo, o mundo nunca foi e nunca será uma coisa
estática, as culturas sempre se influenciaram e dialogaram da mesma
forma que os estilos musicais surgem por alquimia. Um baixo daqui,
uma bateria dali, e eis que nasce um novo estilo, que não é mais
isso ou aquilo, é tudo isso e aquilo junto. E quando um estilo
agrada ele deixa de ser regional ou nacional para se tornar
universal. E isso não significa que a sua origem será negada, pelo
contrário, as contribuições só tendem a fortalecê-lo como aconteceu
com o rock e o samba.
Sugestão de trilha sonora para ler
esta coluna "Firestarter" do Prodigy ; "Vou apertar mas
não vou acender agora" de Bezerra da Silva.
No mais "música para ouvir , música
para ouvir, música para ouvir..." (Arnaldo Antunes) que "o
silêncio é reacionário" (J.
P. Sartre)
P. S.
Agora que já estou no meu segundo artigo, vou tomar a intimidade de
convidar vocês para visitarem a minha página na:
www.tramavirtual.com.br/artista/noemia_duque
A minha demo com cinco músicas,
release e foto estão lá. Uma amiga da night que como se diz
atualmente "é uma fofa" chamou o meu trabalho de tosco. Confesso que
a porrada foi forte. Mas quem está ligando para isso? Depois que um
crítico musical chamou o novo trabalho dos White Stripes (
isso mesmo, White Stripes) de tosco, perdi o receio. Acho que
já posso relaxar e voltar a sonhar com a minha demo tocando por aí.
Nem que seja no fundo do quintal ou na garagem da casa dos
amigos.
Beijo em todos e todas.
Fiquem com Deus.
Noemia
Duque
Rio de
Janeiro, 24 de abril de 2005
Artigo escrito
para a
Coluna
MPBZona
no site
www.tosembanda.com
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