Eis o personagem-símbolo de 2006, 2007 e sempre, porque o trabalho de Caetano é atemporal. Pelo conjunto da obra: talentosíssimo, inteligente, polêmico, transgressor, amado, odiado, incompreendido, atormentado, endeusado. Hey Nana! ‘Uh’! Há os ávidos, que querem devorá-lo. Outros, mais controlados, querem apenas “dissecá-lo”. Tudo, pelo bem da ciência lítero-musical. Ou não. Não pretendo devorá-lo, porque aí, já seria too much. O fim. Também, dissecá-lo-não-ei. Sou contra essas experiências científicas perigosas, que podem deixar seqüelas no objeto de estudo. Então, como não sou crítica, nem cientista, nem devoradora de talentos, para que escrever, não é mesmo? Para não emburricar, como exercício de reflexão, comunicação, para celebrar e eternizar momentos bons, ruins, mais ou menos. E porque o nosso “Herói”, aos 64, superpunk, exibindo feliz e despudoradamente um palo duro... é a cara desta coluna.
Acompanho o trabalho de Caetano desde que eu era criança. Passei por todas as fases, até aquela que eu nunca imaginei: a de odiá-lo. Claro que essa foi a mais breve de todas. Porém, uma experiência única: mata-lo e depois ressuscita-lo. E esse retorno ás raízes aconteceu de forma inesperada. Sabia que ele estava lançando um novo CD e iria com certeza assistir ao show. Mas não imaginava que seria justo no Tim Festival e “naquele dia”. Foi um choque tão grande que eu nem conseguia raciocinar direito. Isso me fez escrever “O Cê da Çalvação”. O show de Caetano deve ter surpreendido a muitas pessoas, que estavam presentes na tenda naquela madrugada, comigo não foi diferente.
Por isso, fui vê-lo outra vez no Circo Voador. Tinha ingresso para os dois dias, comprados com a minha carteira de estudante. Juro que não é falsa. Acontece que eu terminei o curso de Licenciatura com certo atraso em relação á Graduação, e como não tive tempo de colar grau, ainda posso usufruir do benefício. Bem, na terça, prestei atenção ao show, mas não consegui relaxar, por causa do stress do trabalho. Mas na quarta foi perfeito. Pelo menos para mim. O show de Caetano como sempre mostrou ser um acontecimento agregador.
Lógico que no “andar de cima” eu esbarrei com alguns “sem noção”, querendo brigar por causa de lugar, coisas menores. Mas “esses” era minoria absoluta. Puxei um mantra do meu ipod interior “love is my religion”, espantei os maus espíritos e sartei fora! No “andar de baixo” do Circo, as coisas estavam super zen. Cheio de artistas e pessoas legais como Zélia Duncan, Nelson Meirelles, Gustavo Mena, Dandara. Todo mundo pagando pau pra “Ele”. Encontrei Kika e Gustavo Black Alien que se mostrou um ótimo anfitrião, nos apresentou ao gente finíssima Lenine, a Moraes Moreira e seu filho Davi Moraes, que foram ver o Mano (Caetano) balançar o chão do Circo. De quebra, Black Alien confidenciou também ter sympathy for... ”God”! Fiquei roxa... de emoção.
Foi “muito ótimo” ver Caetano desfilar suas personas musicais. Um bálsamo. Gostaria de ater-me apenas ao músico, porque o homem a “Deus” pertence. Mas como isso é quase impossível... Let´s go. Caetano bicho solto rendendo loas ao seu lado garanhão em “Odeio”, ‘todas mucosas pra mim’ foi simplesmente... desconcertante. Desnudo em “Não me arrependo”, emocionou. Mau que nem pica-pau, indo direto na jugular, quer dizer, nas estrias, celulites, incômodos, entre outras particularidades femininas “não tenho inveja da adiposidade / nem da menstruação / eu sou homem!” Doeu. Xeque. Mas a massagem zerou a guerra ‘só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos’. Uh! Xeque mate! Sarcástico e abusado cantando ‘Meu amor / tudo em volta está deserto / tudo certo / tudo certo como 2+2=5’. Misterioso em “Amor mais que discreto”. Cruel em “Rockz”. Não deu letra.
Caetano dedicou “London, London” á Jean Charles. Louvável atitude. Realmente, muitas coisas estão fora da ordem mundial. E em Londres o principal alvo, no momento, são os árabes. No Brasil, continua sendo o negro. ‘God’’ também cita a questão da idade em “Odeio” e “Amor mais que discreto”. Na primeira ele ri de si mesmo e tira onda do fato de estar inteiro, aos 64. Na segunda também. Seria desnecessário falar de idade. Seria. Mas é bom que ele frise isso. É bom que ele celebre a idade, não como um peso, mas uma coisa natural e inevitável. O importante é que as idéias não envelheçam. Caetano é uma prova disso e esfrega essa “verdade” na nossa cara. Com “Cê” ele está fazendo muito músico com menos idade, parecer velho na acepção pejorativa da palavra. Mostrou que é mais rockz do que muito rocker. Hein?Palo Durísimo!
Bem, não pretendia polemizar com os acontecimentos político-ideológicos, para não voltarmos á estaca-zero. Nevermind... Caetano sem polêmica, é que nem acarajé sem pimenta. Bem, nosso “Deus” além de negar a si mesmo, não considera estatísticas. Não somos racistas? Não adianta! Ele não larga o osso do discurso do “homem cordial que veio para instalar a democracia racial”. Oh meu neguinho, faça isso, não! Largue esse cadáver aí no chão, vá!
Por que esse vazio existencial? Até você? Oxente? Tamos aqui esperando, sentados, essas suas idéias renascerem das cinzas, tal qual uma fênix, e você fica aí, zoando a gente? Oxente meu lindo, se ligue na fita! Olha a Tropicália! Olhe o Movimento Hip Hop! Foi assim, é assim. Tudo bem, que baiano demora, mas assim, já é demais, também! Hein? Exuzón! Palo durón! Arriba muchacho! ‘Cê’. É rockz p...!
Desejo toda a saúde do mundo ao cantor, compositor e filósofo Jamelão. E mais uma vez aproveito para parafraseá-lo.
“Que o ano de 2006 termine em melado e 2007 seja doce, doce, doce.”
Beijo no coração de todas e todos.
Noemia Duque
Rio de Janeiro,
01/01/2007 |