Afrika Bambaata

no

"Coletivo de Imprensa"

 

O mês de abril foi cheio de boas surpresas na área musical. Primeiro foi o gente fina, mistura de babalorishá e  monge tibetano Afrika Bambaata que fez mais uma visita á 'nossa área'. Afrika, que apesar de local faz o tipo cool, sem ser chato ou pretensioso, ficou ali na dele, respondendo o que se perguntava na coletiva de imprensa, coletiva nos moldes hip hop, of course, que tava mais para 'Coletivo de Imprensa'. Afrika ficou ali na moral, sem tergiversar e demonstrando total felicidade e humildade (não confundir com subserviência e/ou pieguice) em relação ao fato do público brasileiro ser tão caloroso e respeitoso com o trabalho de artistas como ele. Em suma, Afrika Bambaata continua 'á procura da batida perfeita' e para ele planeta bom é planeta rock. E rap. E samba. E todo tipo de música boa que cruzar as suas carrapetas.

 

Como figura importante na criação das batidas do rap e do funk, Bambaata é bastante conhecido para quem está ligado no 'movimento". Ele já é 'cosa nostra', mas ainda assim desperta uma enorme curiosidade na galera. No meu caso, que sou de uma geração anterior a essa que cresceu ouvindo rap, descobri o "Mestre" tardiamente, mas antes tarde do que nunca, sentencia a sabedoria popular, com bastante propriedade. Apesar de todos os shows e participações que tem feito por aqui, com Marcelo D2, Catra, Sampa Crew entre outros, só agora a vida e o tempo me possibilitou de conferir o show dele de perto. Não posso me queixar, tive oportunidade não só de assistir ao show que ele fez na Fundição Progresso, sexta-feira,11/04, como também de conversar com ele. Not too bad. Foi um papo rápido, só para batizar meu site, que não sou besta nem nada, que o santo do cara é forte. Mêu, é muito Ashé!  

 

MPBzona - Como se sente tocando mais uma vez aqui no Rio?

 

Afrika Bambaata -  Ah eu adoro vir aqui tocar vários estilos músicais para um publico tão diversificado e apaixonado por música como o brasileiro, adoro tocar no Brasil, e tocar no Rio de Janeiro é muito especial.

 

MPBzona - Vc tem vindo com certa freqüência ao Brasil, já conhece bem a cena hip hop do país?

 

Afrika B - Sim, conheço artistas de alguns estados brasileiros, como MC Tati (Quebra Barraco), Rappin Hood, Racionais MCs, MV Bill, Sampa Crew, Catra, B Negão, Marcelo D2, entre outros

 

MPBzona - Vc chegou a fazer uma parceria com algum desses artistas citados?

Afrika B - Sim, fiz uma parceria com Catra e também com o grupo Sampa Crew, mas ainda não vi como ficou o resultado desses trabalhos

 

MPBzona - Além da cena rap, vc conhece outros estilos musicais brasileiros? Vc tem música brasileira no seu set list?

 

Afrika B - Claro, conheço Jorge Benjor, Tim Maia, Gilberto Gil...ouço bastante samba...e tenho músicos brasileiros no meu repertório.

 

MPBzona -  Nada contra a música pra rebolar, mas parece que agora tudo se resume ao quadril, poucos grupos politizados, como o Wu Tang Clan tem espaço, e os mais antigos tipo Public Enemy, ouve-se muito pouco nos canais de rádio e TV especializados. O que vc acha da cena rap americana atual?

 

Afrika B - A música está em constante mudança por isso é preciso acompanhar sua evolução sem preconceito. Eu acho que é necessário haver um equilibrio, tocar diferentes estilos, diferentes grupos, tanto novos quanto antigos. No meu trabalho procuro dar espaço a todos, aos grupos e artistas novos e também os mais antigos, toco os mais variados estilos, reggae, bossa nova, salsa, funk, rap, rock, everthing is good...  É importante que o público reivindique isso também junto ás rádios e canais de televisão, peça para tocar os artistas de sua preferência, porque hoje quem manda nas programações de rádios e televisão voltadas para a música são as grandes empresas de celular, então o público precisa fazer valer a sua vontade e o seu direito de consumidor. Só assim poderemos ouvir um Public Enemy tocando ao lado de um 50 Cent, Afrika Bambaata ao lado de Miss Elliot...entre outros...é fundamental que haja esse equilíbrio na música...

 

 

MPBzona - O que podemos esperar do seu set list no show de amanhã á noite na Fundição Progresso?

 

Afrika B - Pode esperar muita música boa pra dançar, porque é uma apresentação de um DJ, logo não será um show e sim uma festa, uma festa com muito som da pesada pras pessoas se "acabarem" na pista.

 

MPBzona - Valeu, então amanhã estarei lá, me 'acabando na pista'...

 

Afrika B - Ok, muito bom, é isso aí...

 

De fato, no dia do show, foi bomba! Bomba! Bomba! Teve a participação do rapper Shawlin (Quinto Andar), de MC Catra com direito á dançarina "piscando" para a platéia, numa verdadeira aula de anatomia, mas o melhor momento de seu show foi mesmo quando ele cantou "Cadê o isqueiro?" e aí a galera respondeu em coro. Teve também a participação dos Djs Castro e Tamempi e de  Don Negrone, que foi também o apresentador da "Festa". Bem, analisando por uma perspectiva estrita e obviamente totalmente pessoal, considero que uns mandaram muito bem, outros nem tão bem, nem tão mal. Mas como disse Afrika, pra começo de conversa, aquilo ali não era um show, aquilo ali era uma festa.

 

 Contudo,  porém, todavia, outrossim, BNegão, um peso pesado da vertente 'Música Preta Brasileira', estava na área para explicar, ou melhor 'embolar', o fato de que "festa" na concepção bambaatiana não é sinônimo de alienação, pelo contrário, as festas de soul music dos anos 60 e 70 eram locais onde os pretos, quase pretos e quase brancos, se encontravam para alimentar e afirmar o movimento "black power". BNegão mostrou que é possível fazer música para dançar e pensar ao mesmo tempo. Mandou seus 'manifestos' em forma de canção "Priorize as prioridades", "Dança do patinho", "Legalize já", entre outras, deixando o público turbinado e preparado para o dono e anfitrião da "Festa", que realmente mostrou estar afinado com a cultura local, discotecou para Dom Negrone mandar um monte de funks Miami bass, da primeira leva do "movimento" como "Eu só quero é ser feliz / andar tranqüilamente na favela onde eu nasci", tocou Tim Maia, Wilson Simonal e Chico Buarque. Botou todo mundo pra 'se acabar na pista' e ainda pedir mais. Muito bom, é isso aí...Tirou onda. Exuzão! Pau Duríssimo!

 

 

O Retorno de  Seu Jorge

 

Alguns dias depois do peso pesado Afrika Bambaata tocar na Fundação, dia 26/04, foi a  vez de Seu Jorge, pisar no mesmo palco. Seu Jorge, que apesar de carioca da gema, não fazia show no Rio há cinco anos, depois de sua estréia internacional no cinema, veio testar como andava sua moral na própria terra, já que mora atualmente em Sampa. Atraiu a maior galera, ávida para vê-lo. O show que teve a abertura de seu parceiro Gabriel Moura, foi um estrondo. Seu Jorge era aguardado com bastante ansiedade e quando chegou, não se fez de rogado, botou pra quebrar. O público acompanhava atentamente cantando seus maiores sucessos. O show teve as participações da cantora Teresa Cristina, que com sua voz suave dividiu o vocal com Seu Jorge no samba "Me deixe em paz", de Leandro Sapucahy e da Bateria da Mangueira. Pelo que se viu nesta apresentação, Seu Jorge com certeza contraria com maestria a máxima de que "Santo de casa não faz milagre". Seu Jorge faz milagre e ainda conta o nome do Santo. Salve Seu Jorge. É muito Ashé! Duríssimo!

 

                                  

 

 

  Velha Guarda da Mangueira lança DVD no Canecão com partipação de Leila Pinheiro, Emilio Santiago, André Gabeh e Alcione entre outros artistas da música brasileira

 

Agora, para finalizar, não poderia deixar de registrar mais um acontecimento fantástico, que aconteceu nesta cidade, no mês de abril, e que espero, continue acontecendo, que foi o show que a Velha Guarda da Mangueira fez no Canecão, para como disse um de seus integrantes "divulgar o DVD que gravaram e arrecadar um dinheirinho, para completar a aposentadoria". Participaram os convidados Leila Pinheiro, Alcione, Emílio Santiago, André Gabeh. Foi emocionante ver a Velha Guarda: Tantinho da Mangueira, Xangô da Mangueira, Nelson Sargento, Jamelão Filho e as mulheres da Mangueira  cantando e defendendo a tradição da sua comunidade. Coisa linda de se ver. É isso aí, Mestre Nelson Sargento, o samba pode agonizar mas nunca morrerá. Resistência.

 

Beijo em todos e todas.

 

Noêmia Duque

 

Rio de Janeiro, 05/05/2008