O Hutúz Filme Festival, mostra que aconteceu dentro da programação do Hutúz Rap Festival 2006, exibiu alguns documentários abordando a utilização da arte, como forma de afirmação e inclusão social. Entre os filmes exibidos uma produção estrangeira chamou a atenção pelo ineditismo do tema. Falo do filme “Pick up the mic” do diretor norte-americano Alex Hinton, que recebeu dos tradutores brasileiros, o sugestivo nome de “Com a boca no microfone”. O filme é sobre rappers gays, que cansados de serem ofendidos e humilhados nas letras dos rappers heterossexuais, resolveram passar a sua visão dos fatos, fazendo letras que versam sobre suas vidas, incluindo no pacote a questão da homossexualidade.

Pensando em fugir dos estereótipos, batizei este artigo de “Apodere-se do microfone!”. Por considerar este, um título mais próximo da visão que os rappers tentam passar no filme. Evitando assim, o risco de desvirtuar o foco da principal  mensagem da película, que não é apenas falar de opção, mas principalmente de música. Como faz questão de deixar claro Miss Money, uma a mc e produtora de Houston, ex-cantora de igreja e filha de um pastor  protestante, que se assume como lésbica “não faço hip hop gay, sou uma artista gay que faz rap”. É lógico que ser hétero difere de ser homo, mas essas diferenças não deveriam ser tomadas como objetos de limitação, tornando os músicos reféns dessas questões, como enfatiza o rapper Aggracyst, “as pessoas não vêem nada demais em os poetas serem gays, mas os  rappers não têm a mesma aceitação"

 
     

Um exemplo típico dessa atitude reducionista é a associação que se faz entre força, coragem e o sexo masculino, como se esses fossem atributos exclusivos desse segmento. Assim, se excluem as mulheres e os gays com o argumento de que agressividade, força, coragem é coisa de macho. Como se os gays e as mulheres também não possuíssem força e coragem suficientes para encarar dificuldades e desafios. Essa lógica impera em diversas esferas das nossas vidas, atingindo também o campo profissional. Mesmo no meio artístico onde existe maior abertura, é comum ouvirmos comentários do tipo “rock e rap é coisa de macho porque é agressivo”, levando mulheres e gays a sentirem-se como peixes fora d´água, e aqueles que tentam quebrar o bloqueio tornam-se espécies de mártires.

 

Pois o documentário de Alex Hinton chegou para desmistificar o que sobrou dessa crença. E o filme começa com os mcs Dutchboy e Deadlee fazendo um som, que pode ser classificado de gangsta gay, ou como eles dizem gayngsta, cantando “Bem, vamos endireitar as coisas por aqui/Nada de boqueteiro /Nada de chupeteiro /Viado não entra aqui/Diz ai! / Proibido viado! Proibido viado! / Viado não entra aqui! /Proibido viado! Proibido viado! / Nenhum viado será tolerado aqui! / Proibido viado!/ proibido viado!/ Viados rejeitados/Se juntam e dão o troco/ Sai pra te ferrar/ Proibido viado?/Quem é o punk agora?/Vamos te parar/ Vamos te deter/ Te encher de porrada  / Proibido viado?/Quem é o punk agora?

     
     
     
     

Eles simplesmente pegam aquele discurso nojento dos intolerantes e subvertem os papéis. Agora são eles que estão chamando pra "porrada", cheios de atitude no palco, e como eles mesmos afirmam “estão no comando”. O curioso é que, caso os dois não fossem assumidos, poderiam facilmente passar por rapppers heterossexuais, levemente afeminados, como ocorre com certos cantores de rock. Mas eles fazem questão de afirmarem a sua condição homossexual. MC Deadlee, um gay alto, belo e forte, conta que ficou com esse refrão na cabeça ao ir a uma casa noturna. Ele, então, resolveu apropriar-se desse discurso para denunciar e reagir á violência simbólica e real que costumam sofrer "eles não colocam placas na parede, mas deixam claro que não querem gay ali. Quero passar uma fagulha de emoção. E ver os garotos gays gritando na cara dos héteros intolerantes ‘proibido viado aqui’ é demais”, comemora.

 O resultado é devastador e tem feito muitos músicos como o inglês QBoy e o americano de Minneapolis, Tori Fixx, saírem do armário e mostrarem a sua capacidade de fazer rima. “Adoro rap desde os 11 anos, mas sempre dissera a mim mesmo que não poderia ser um rapper porque sou branco, inglês e gay. Eu mesmo criei esse bloqueio e assim que o superei, olhe onde estou. Estou aqui em Nova York para me apresentar no Peace Out. Queria ser mais conhecido na cena hip hop gay, fazer parte de tudo isso mais ativamente, por isso estou aqui.” Tori Fixx que aos 22 anos tentou o suicídio, por não agüentar a opressão e o peso de ser negro e homossexual, conta que o rap foi a sua redenção. Ao conhecer outros músicos com a mesma história de vida, passou a ver o mundo sob uma nova perspectiva e recuperou a alegria de viver e a auto estima. Ele se diz indignado com o fato de haver tanta homofobia no meio hip hop “o que atrai as pessoas no rap, seja ela branca, negra, homo ou hétero é o fato dele ser realista, cru”.

     
     

Tudo começou na Parada do Orgulho Gay em San Francisco, Califórnia, com os rappers se encontrando e trocando informações, o que deu origem ao festival PeaceOut“, evento anual de hip hop que começou em agosto de 2001, em Oakland, Califórnia,e está na sua 6ª edição. Voltado para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, aos poucos tem-se espalhando por cidades como Nova York e Portland, Oregon e a  tendência é crescer e tornar-se um evento nacional. “Começamos a trabalhar juntos e era muito legal estar envolvido em um projeto tão especial” diz Juba Kalamka diretor do “PeaceOut”, expressão que segundo o próprio, quer dizer “liberte-se e fique em paz”. O festival tem sido fundamental  para que a população homossexual organize-se. Seus expoentes já possuem selos, gravadoras, fanzines, programa de rádio e até igreja, sem contar que o festival tornou-se uma grande vitrine para os novos grupos e artistas da cena homorap.

Sem dúvida um grande avanço, que contou com o apoio de pessoas como Matt Wobensmith, um jovem produtor da Pensilvânia, que mudou-se para a Califórnia aos 18 anos, no começo dos anos 90 e criou o selo Outpunk, voltado para o punk rock gay . “O Dutch fazia um zine chamado “Oi Boy”, então quando soube que ele estava fazendo o lance do Rainbow Flava, um lance gay, eu falei: opa!” Gravamos e muitos estão aí hoje, apresentando-se em clubes, comemora Wobensmith. “Acho que Matt foi o primeiro a considerar que tínhamos um projeto cultural sério” diz Dutchboy, reconhecendo que a produção de Matt Wobensmith foi fundamental para a solidificação do trabalho do grupo e do movimento.  Outro elemento importante para o crescimento do queerhiphop foi a internet. A criação do site www.gayhiphop.com ajudou a fazer conexões com pessoas do mundo todo.  “Não é apenas um website, é um ponto de encontro para toda a comunidade” diz Mister Maker editor do gayhiphop.com

Essa comunhão de pessoas com objetivos parecidos, fazer o mundo enxergar que o preconceito é uma pedra no caminho da evolução da humanidade, de tão inusitado, a princípio era motivo de surpresa para os próprios envolvidos: “eu tinha 17 anos e pirei: caralho! gay fazendo hip hop?” diz o transexual Katastrophe.  Outra que espanta-se com o fato é  God-Dess, uma lésbica de Madison, Wisconsin  “Eu achava que fosse a única rapper gay do mundo. Sério! Pensei: hip hop gay? Rainbow Flava? Parece bom! Fiquei chocada, depois conversamos e eles eram incríveis e mantemos contato desde então”. God-Dess é a única entrevistada do documentário a nadar contra a corrente da tendência mundial, que é buscar o caminho da independência, e sonha assinar contrato com uma grande gravadora. Para conseguir realizar seu sonho, ela mudou-se para NY e distribui sua demo para pessoas do meio musical. “Achava que era o primeiro” diz Johnny Dangerous, surpreso ao descobrir que havia algumas dezenas, quiçá centenas, como ele. “Achava que fosse uma galera assim... tipo... os amigos gays do Nelly. Acho que não esperava que tivessem tanto talento”, confessa o rapper Deadlee, um dos criadores do Rainbow Flava, grupo que junto com o Deep Dickollective (DDC) são os pioneiros da cena homorap. “Nós do DDC e o Dutchboy, decidimos entrar no hip hop gay porque não gostávamos do que ouvíamos, quando íamos a night clubes gays. Cansamos de ouvir os mcs nos chamando pejorativamente de “bichas”. Tivemos que criar a nossa própria música para cantarmos nos clubes e ouvirmos juntos com os nossos companheiros, letras do tipo “esse é meu namorado, ele é uma graça...” diz Tim´m T. West um rapper de Oakland, também integrante do Deep Dickollective.

     
     

Espécie de padrinho do movimento, o produtor e mc Juba Kalamka, um negão com visual pos-moderníssimo - piercings, cabelo rastafari e tatuagens - que além de diretor do PeaceOut é dono de um selo voltado para o segmento, o Phat Family, teve a audácia de, entre tantas façanhas, apresentar-se juntamente com o seu coletivo o Deep Dickollective, ou DDC, em uma edição do PeaceOut em 2004, em San Francisco, trajando um curto e justíssimo vestido de crochê verde, vermelho e preto, em uma performance que  deixaria Kurt Cobain arrepiado, de tão punk. “Existe várias formas de fazer hip hop do bom”, afirma ele que já foi casado e é pai de um menino, explicando que para amadurecer como artista e ser humano foi preciso entender e assumir diversas questões existenciais e a homossexualidade foi uma delas. “Eu soube de casos de artistas que depois da sua morte a família tentou negar a sua opção sexual, dizendo que ele era um homem devotado á Igreja e a Deus. Não quero que isso aconteça com meu trabalho. Isso é algo que precisamos fazer pelas próximas gerações de homossexuais. E ter um selo é muito importante porque te levam a sério. A primeira coisa que perguntam quando vêem o CD é: quem gravou? E eu respondo: Phat  Family”.

Aliás, punk poderia ser a palavra-chave. Poderia se eles mesmos não distinguissem um movimento do outro. Sem dúvida o movimento hip hop é o filho mais legítimo do punk, mas, diferentemente dos punks, eles são engajados, não têm nem a postura de desprezo, nem a indiferença autodestrutiva dos punks. Nada de tentar ignorar determinadas ideologias, aquela crença de que “as coisas tem o valor que damos a elas”, então “deixa pra lá”.  Não. Eles não subestimam o oponente, partem para cima dos opressores, encaram os problemas de frente, se posicionam, combatem-nos sem tergiversação. Lógico que tem o dane-se! O fuck you! Porém, eles não querem apenas dinamitar o sistema podre, mas garantir que os seus direitos sejam respeitados. Querem ocupar o seu lugar no mundo de forma afirmativa. Daí a apropriação do movimento hip hop, o caminho ideal para quem quer conquistar o seu espaço e acredita que pode, deve, merece e que vale a pena lutar, para que as próximas gerações não mais tenham que abaixar as suas cabeças, curvando-se aos preconceitos e  preconceituosos. E para isso lançam mão do “faça você mesmo”. Logo as palavras chaves mais condizentes com a situação seriam “dignidade”, “altivez”, “coragem”, além de “atitude” of course. O filme é chocante e tocante, é quase impossível não se solidarizar com a luta, e eles seduzem não apenas pela firmeza do discurso, mas principalmente pela qualidade musical, que não fica atrás da dos grupos héteros.

 

Um dos temas recorrentes no documentário é o fato de alguns artistas do mainstrean, esconderem a sua preferência sexual para atingir mais rapidamente o sucesso. No caso da grande maioria dos rappers retratados no filme, eles fizeram uma opção de vida, ser eles mesmos sem medo, sem culpa e sem máscaras. E isso só é possível devido ao fato deles terem optado pela cena underground. O que, obviamente, não significa que eles queiram estar no gueto, eles querem sim, fazer com que as pessoas abram as suas mentes e entendam que o trabalho deles é tão digno quanto o de qualquer outro segmento que faz rap. Tim´m West, cuja carreira solo, paralela ao Deep Dickollective é muito bem sucedida, e que poderia tentar passar por um músico heterossexual, para ser aceito pelo público e assim vender mais discos, é categórico em assumir a sua condição “acho que as pessoas estão muito obcecadas pelo dinheiro, é importante haver diálogo entre todos os artistas que fazem rap, não há problemas se eles fazem músicas falando das gatinhas e eu dos gatinhos, é tudo hip hop”.

Essa possibilidade que o rap proporciona, de falar de questões referentes ao  universo de quem o faz, é exaltada por todos os subgêneros homossexuais. JenRo, uma lésbica cuja mãe aparece no documentário ao lado dela, dizendo aceitar a opção da filha, conta que assumiu ser lésbica aos 14 anos, na escola, para outro amigo também gay, que participava de um grupo de rap. Ou seja, a música sempre aparece como o elemento aglutinador, e eles estão felizes com esse instrumento pacífico de luta, pela capacidade que ele tem de canalizar toda a revolta, agressividade e outros sentimentos, que são definitivamente humanos, e que podem manifestar-se em qualquer ser, independente de gênero, etnia, classe social e preferência sexual. O rapper Katastrophe não tem dúvida da força da música no resgate da cidadania, "quero que entendam como é difícil ser um adulto saudável e estar vivo sendo gay. É sério, você não se matou, isso é uma vitória! No hip hop existe essa masculinidade de pavão, então qualquer tipo de feminilidade ou cultura francesa que entre ali é considerada demais, como se isso fosse derrubá-lo.  O rap é sexual na sua essência, é carnal. Acho que por isso é considerado tão ameaçador ter gays fazendo parte da cena, algo assim...não podemos ter gays envolvidos!Eu não sou gay!Se você é um heterossexual feliz, por que ficar estressado com vida sexual dos outros? Mas tem gente aí como o Mos -Def e outros, que fazem o seu trabalho sem vender essa baboseira misógina de matar bicha"

     
 
     

Vê-los em ação é uma comprovação dessa força, e ninguém aí se espante se a musica deles vier a ser o sopro vital, que irá sacudir o rap no mundo inteiro. Esses grupos já são o que o grunge foi para o rock, só que muita gente ainda não sabe disso. Não tarda e esse movimento irá ganhar as ruas e a mídia, ou vice-versa. Acredito piamente que em um futuro não muito distante, ver rappers gays em ação, será tão natural quanto ver roqueiros gays. Podendo inclusive virar uma tendência. Mas, projeções á parte, o fato é que esses rappers são hoje o que os punks já foram um dia. A audácia deles recupera a carga semântica da palavra atitude, é impossível ignorar o que se vê, pois a situação coloca o espectador de cabeça para baixo. Acredito que para os homófobos deve soar assustador, e essa é justamente a intenção “não sei se te choca, perturba, enoja, excita ou te deixa com as calcinhas molhadas, só sei que estou te dando uma coisa diferente” diz o papo reto Johnny Dangerous.  Não há sinais de medo nem de hesitação, eles partem para o tudo ou nada. Depois de assistir ao documentário é impossível recuar, revermos os nossos conceitos, torna-se mais que uma frase de efeito, é um dever inadiável.

     
 
     

O que mais chama a atenção no documentário, é a forma como eles se desnudam na frente da câmera. Há de tudo, do rapper que escondeu a sua opção, assinou um contrato com uma grande gravadora,e em seguida foi abandonado quando a verdade veio á tona, destruindo o sonho de fazer uma carreira bem sucedida comercialmente, àqueles que desde o inicio perceberam que o único caminho possível seria o da independência. Como em qualquer outro grupo, há também limitações e dificuldade de diálogo, os transgêneros formam um subgrupo dentro do universo dos gays e lésbicas. Marcus René Van, outro integrante do Deep Dickollective, se indigna com o fato da sua opção em mudar de sexo – ele era mulher - realidade mal compreendida mesmo dentro do meio gay, chamar mais a atenção do que a sua música. Assim como Katastrophe que afirma “Eu não sou aceito como parte de nenhuma comunidade hip hop, quando eu falo que já fui menina, as pessoas simplesmente não conseguem processar a informação, por não saberem do que se trata”.  Há também os que se afirmam bissexuais e que também são vistos com desconfiança pelos “puristas”. E há também vozes dissonantes no meio de tanta afirmação. Em uma passagem do vídeo, um músico heterossexual, parceiro de Miss Money, tenta explicar uma letra de sua autoria em que ele fala em cometer atos de violência e intolerância contra gays, mas a argumentação mostra-se insustentável naquele universo. Sua parceira ao invés de comprometer o trabalho musical dos dois, demonstra total profissionalismo e irônica, durante um programa de rádio manda "esses são meus parceiros, eles não são gays mas são simpatizantes da causa". Ou seja, se formos olhar pelo viés da sexualidade a questão torna-se excessivamente complexa. Porém se nos atermos á musica, e apenas a ela, dá para simplificar: são músicos com várias influencias, tentando fazer musica da melhor forma possível, que na maioria das vezes o conseguem, e que merecem ter os seus trabalhos reconhecidos por isso. That´s all.

 

Um dos mais aguerridos defensores do movimento, o mc, dj e produtor Dutchboy, integrante e fundador do coletivo Raimbow Flava, criado por ele e o rapper Deadlee, em 1997, defende a necessidade de fortalecer o que eles denominaram de homorap ou queerhiphop. Dutchboy, é uma espécie de Eminen ás aversas, que poderia estar fazendo mais sucesso comercial como mc e produtor, caso aceitasse “esconder” a sua orientação sexual. Ele se diz bissexual, opção que é ignorada pelos amigos e pela família, que incrédulos fingem não enxergá-la, e é casado com uma mulher também bissexual, e  faz questão de afirmar a sua atitude e convicção. Entre os seus feitos, além da criação do coletivo Rainbow Flava juntamente com o rapper Deadlee, do qual fazem parte também Johnny Dangerous, e Tori Fixx , estão a criação do  supracitado fanzine dedicado ao público queer chamado "Oi Boy" e de um estúdio de gravação voltado para rappers e djs. Em 2004, Dutchboy criou também, em conjunto com outra rapper bissexual nova-iorquina chamada Paradigm, o 1º PeaceOut em Nova York, que atraiu artistas e fãs não só na América, mas do mundo todo.  

     
 
     

Ça suffit ou querem mais? Tem. Katastrophe o rapper que apesar de assumir no seu site que nasceu menina, transformou-se em um rapaz belíssimo e agora é um dos mais promissores expoentes do rap, amado e desejado por fãs que visitam a sua página na internet, dá o seu depoimento ao lado dos pais, demonstrando que a viagem é sem volta. "Quero fazer hip hop para o público gay, pois não temos nada nesse sentido, mesmo que isso esteja, nesse momento, restrito ao nosso grupo. Existem gays suficientes que gostam de rap, que cresceram vivenciando o  hip hop e precisam de uma afirmação positiva nos seus trabalhos, não podemos permitir que essas pessoas sejam derrubadas, tenham os seus sonhos frustrados".  Pois é, para todos aqueles que insistem em ficar no seu mundinho, transitando em volta do próprio umbigo, um alerta: essa realidade cedo ou tarde baterá á nossa porta, não adianta tentar fecha-la com violência, pois a dita cuja, por enquanto, manda dizer, gentilmente, que não irá recuar, e que caso haja resistência, irá com certeza, por o pé e abri-la a força.

Preparem-se para negociar, pois como disse Dutchboy em entrevista á um programa de rádio voltado para o público homo, “o hip hop é rude, é uma cultura de garotos (e garotas) agressivos, onde as pessoas falam o que vem á cabeça, sem se preocupar se é apropriado ou não. Este é um ponto muito bom, pois o sistema tem medo de nossos jovens rebeldes, do que eles têm para falar” diz sendo interrompido por Miss Money que acrescenta “agora terão medo de jovens rebeldes gays”. A idéia era fazer música, mas já que os temas transversais obrigatoriamente atravessam a matéria, é como disse Mister Maker, editor do site gayhiphop.com “O mundo ideal seria o mundo onde não houvesse hip hop gay. Onde houvesse simplesmente hip hop e nós pudéssemos entrar sendo abertamente gays, sem sermos julgados por isso.” Bem, como esse mundo ainda não existe, vamos ouvindo o som que vem das ruas e tentando nos acostumar com o grito de guerra da galera: Yo! Gayhiphop.com. PeaceOut!

Por Noemia Duque

Rio de Janeiro, 20/04/2007