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Foi enquanto eu decidia
qual assunto abordar no meu artigo de estréia no Tô Sem Banda, que
me ocorreu a idéia de escrever sobre essa figura que tornou-se
onipresente nas nossas vidas, o dj. Hoje, festa que se preze
tem que ter um, se não tiver...corre o risco de ser considerada
everything but a party. Ele, o dj, virou uma célebre
autoridade, e ai de quem tentar contrariá-lo! Por isso, fiquei
surpresa, mas nem tanto, com a coincidência, quando ao folhear a
revista da MTV do mês passado, deparei-me com uma oportuna
matéria sobre o referido personagem que tomou de assalto a cena
musical.
Na verdade, a revista em
questão, fala da querela entre os indivíduos que mais se sobressaem
numa banda, além dos cantores e guitarristas. Mas, no caso desta
coluna, interessa apenas, discutir o que os djs trouxeram de
contribuição para a música popular feita no século XXI. O que mudou
com a chegada dos considerados não-músicos, por alguns integrantes
da old school, pelo fato de não terem estudado ritmo,
harmonia e melodia, mas que conseguem fazer música a partir de
outras já existentes e muitas vezes, acabam por revelar verdadeiras
pérolas, escondidas sob roupagens mal ajambradas?
Levando-se em
consideração, o fato de a figura do/a dj estar
intrinsecamente ligada ao movimento hip hop, sem dúvida,
falar de contribuição, é falar de democratização das formas de
produzir música, incluindo aí, questões como as leis que regem o
mercado fonográfico e a distribuição e divulgação dos trabalhos
musicais dos artistas, principalmente, os independes. E, partindo do
pressuposto de que o/a dj é, por natureza, uma síntese do
"faça você mesmo" , o mínimo que se poderia esperar deles e delas,
seria a utilização do prestígio conquistado para reforçar um
movimento, que já foi extremamente marginalizado, e hoje, começa a
ser visto como um diferencial, mas também como um modismo, sendo
utilizado para vender um extenso número de produtos.
Mas, ao contrário dos
nossos antigos(e atuais)cantores e compositores, que eram ( são)
marginalizados por "não lerem partitura" e não tocarem (bem) algum
instrumento, também considerados não-músicos, e por isso,
perversamente lesados nos seus direitos autorais, tendo que aceitar
parcerias que nunca existiram, somente para terem o seu trabalho
registrado, perdendo, assim, uma parte substancial da sua criação,
alguns djs vêm subvertendo a ordem das coisas e dando muita
dor de cabeça aos autores musicais. Esqueçam aquela história de
arranjadores. Sem a menor cerimônia, certos djs vão direto ao
ponto "p": eles querem é poder! Isto é, parceria. Para quê ser um
mero colaborador, se ele pode, com jeitinho, tornar-se um co-autor?
Um "parceiro"?
Como vem sendo dito e
repetido, ultimamente, "algumas coisas estão fora da ordem". As
novas tecnologias estão mexendo com tudo, até com os nossos nervos.
Por isso, uma análise minuciosa dos fatos, se faz necessária para
que injustiças sejam evitadas. Vejamos. No rap, em geral, o
dj faz a base e o Mc rima em cima, podendo haver aí um
intercâmbio de funções, pois às vezes o dj sabe rimar e o
Mc sabe fazer bases. E o rap é isso, ritmo e poesia,
certo manos? Mas, o que dizer, quando um músico (que faz música,
mesmo que seja batucando numa caixa de fósforo) entrega uma
composição, que não seja rap, para um dj fazer um
arranjo, ou produzir, como se diz no jargão musical atual? Para
surpresa e indignação da nação musical, eu soube de casos em que o
dj exigiu parceria. Isso, fazendo
"arranjos", sampleando canções já existentes. Sim, porque depois de
pronta a canção, tudo o mais é arranjo. Ou produção. Mas voltando à
questão, isso é, ou não é, um inacreditável paradoxo? Para não usar
outra palavra mais indignada? Isso, o que é? A vingança dos outrora
considerados não- músicos que estão chegando ao poder, contra os
não-músicos descamisados? Sim, porque um músico (tradicional) que
quase foi vítima de situação semelhante, ao alegar em defesa dos
seus direitos de autor, que Fernanda Porto não precisou (até onde
ele sabia), "dar parceria" ao dj Patife por causa do
maravilhoso arranjo que ele fez para a música "Sambassim", ouviu o
seguinte de um colega de profissão( dj ) que por sinal, não
tocava instrumento algum:
- Mas Fernanda toca!
Teria dito o tal dj , na lata.
- E um dj, toca o
quê mesmo? Pausa para reflexão...
Um MC, que
testemunhou a história, fez a seguinte observação:
- É Claro que ele vai
querer ser parceiro, porque é uma parada que rola grana!
Rola grana? Como assim
rola grana? Acho que ele estava confundindo "o movimento".
Pois criou-se uma nova
casta. A dos ex-não-músicos que exploram os seus pares. Obviamente,
não são todos os djs que agem desta forma, muitos trouxeram
consigo valores "das antigas". Por isso, é preciso deixar bem claro
que o objetivo deste artigo é refletir sobre as mudanças ocorridas
na música. Não é propor uma caça aos djs, nem fazer-lhes
oposição irada. Até porque, a chegada dos djs à cena musical, trouxe
vários avanços. Os djs são responsáveis pelo sopro de vida
que a música popular de quase todo o mundo, recebeu nos últimos
tempos e existem muitos profissionais sérios e éticos trabalhando.
Portanto, a idéia defendida aqui, é extremamente simples: faça fama,
mas não deite na cama, pois nunca se sabe o que o futuro nos
reservará. Chega desse negócio de querer levar vantagem ( demais )
em tudo. Vamos dar ao músico, o que é do músico: seus direitos.
Tenha ele erudição ou não.
Vamos zerar a reza, mas
antes, acendamos uma vela em prol da democratização da música e
também para iluminar as mentes de todos os djs do Brasil e do
mundo. Amém. Enterremos então, os ranços do passado e vamos do
presente, rumo a um futuro pleno de criatividade e acima de tudo
honesto, com os djs Patife, KL jay, Marky, Felipe Venâncio, Nino,
Marechal, MAM e todas as minas, os manos e djs que fazem
música, no nosso ipod. Pois como bem definiu o dj e
guitarrista Bruno Campos "músico é aquele que consegue se expressar
musicalmente". Amém.
Beijo em todos e
todas.
Noêmia Duque
Rio
de Janeiro, 09/03/2005
Artigo escrito para a
Coluna
MPBZona
no
Site www.tosembanda.com
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